A Europa tem agora uma nova espécie invasora a vigiar. A formiga-de-fogo-vermelha (Solenopsis invicta), originária da América do Sul e disseminada há décadas por outros continentes, conseguiu estabelecer-se pela primeira vez em território europeu.
A sua presença foi confirmada na Sicília, perto de Siracusa, depois de um estudo publicado na Current Biology ter documentado uma população madura. A descoberta foi particularmente relevante porque não se tratava de exemplares isolados transportados acidentalmente, mas de numerosas colónias estabelecidas numa mesma área.
Desde então, a Sicília implementou medidas específicas de vigilância, contenção e erradicação. Durante 2025, foram iniciados tratamentos nas áreas afetadas e foi desenvolvida uma aplicação para comunicar possíveis formigueiros através de fotografias e geolocalização. Os trabalhos de investigação e monitorização continuam ao longo de 2026.
O problema, no entanto, não termina na Sicília. Os modelos climáticos utilizados pelos investigadores indicam que muitas áreas urbanas europeias apresentam condições compatíveis com a sobrevivência desta espécie. A questão para os municípios e empresas de controlo de pragas torna-se, por isso, cada vez mais relevante:
Estamos preparados para detetar uma nova população antes que consiga estabelecer-se?
A formiga-de-fogo-vermelha na Europa: uma resposta direta
A formiga-de-fogo-vermelha (Solenopsis invicta) já está estabelecida na Sicília e diferentes áreas urbanas europeias apresentam condições ambientais adequadas à sua sobrevivência. O seu controlo depende especialmente da deteção precoce, da vigilância dos pontos de entrada e de ambientes urbanos favoráveis, da correta identificação da espécie e de uma resposta rápida antes que as colónias se expandam.
De uma deteção na Sicília a um risco europeu
A primeira população europeia cientificamente confirmada foi localizada perto de Siracusa. Os investigadores identificaram dezenas de ninhos distribuídos por vários hectares, demonstrando que a espécie tinha conseguido reproduzir-se e formar uma população estável.
Não era a primeira vez que Solenopsis invicta chegava à Europa.
Anteriormente, já tinham ocorrido interceções relacionadas com mercadorias e transporte internacional, inclusivamente em países como Espanha, Finlândia e Países Baixos. A diferença fundamental é que essas introduções não tinham dado origem a populações estabelecidas conhecidas.
A Sicília alterou este cenário.
A União Europeia considera Solenopsis invicta uma espécie exótica invasora que suscita preocupação na União, o que obriga os Estados-Membros a manter sistemas de vigilância e a comunicar novas introduções ou expansões. Segundo uma resposta da Comissão Europeia de junho de 2025, a Itália continuava a ser o único Estado-Membro que tinha comunicado oficialmente o seu estabelecimento.
Isto permite esclarecer uma questão importante: a formiga-de-fogo-vermelha não está atualmente disseminada pela Europa, mas já demonstrou que consegue estabelecer-se no continente.
Porque é que as cidades são particularmente preocupantes?
Um dos resultados mais relevantes do estudo publicado na Current Biology não foi apenas a descoberta das colónias sicilianas.
Os investigadores analisaram também quais os territórios europeus que apresentam condições adequadas à espécie e concluíram que uma parte significativa das áreas urbanas europeias já apresenta uma considerável adequação climática. Cidades como Madrid, Barcelona, Roma, Paris ou Londres surgiram entre as áreas urbanas potencialmente favoráveis nos modelos analisados.
Isto não significa que a espécie esteja presente nestas cidades nem que venha inevitavelmente a estabelecer-se nelas.
Significa que, caso consiga chegar até elas, determinadas condições ambientais poderão facilitar a sua sobrevivência.
Além disso, Solenopsis invicta adapta-se bem a ambientes alterados pela atividade humana e pode ser encontrada em espaços urbanos e periurbanos.
Isto torna particularmente relevantes para a vigilância locais como:
- parques e jardins;
- escolas e áreas infantis;
- espaços verdes residenciais;
- instalações desportivas;
- terrenos baldios e solos remexidos;
- viveiros e centros de jardinagem;
- áreas logísticas;
- zonas próximas de portos e de pontos de entrada de mercadorias.
Numa cidade, além disso, o movimento constante de plantas, terra, materiais e mercadorias pode facilitar o transporte acidental de espécies invasoras de um local para outro.
Não é apenas uma questão de biodiversidade
A preocupação associada a esta formiga tem várias dimensões.
Por um lado, existe o seu impacto ecológico. Solenopsis invicta pode competir com espécies nativas e alterar as comunidades de invertebrados dos locais onde consegue estabelecer-se. A EFSA considera que existem áreas climaticamente compatíveis dentro da União Europeia e reconhece a sua capacidade para utilizar uma ampla variedade de recursos alimentares.
Mas existe também uma dimensão diretamente relacionada com as pessoas.
A formiga-de-fogo-vermelha reage de forma agressiva quando o ninho é perturbado e pode provocar múltiplas picadas. Normalmente, estas provocam uma reação local dolorosa, mas algumas pessoas podem sofrer reações alérgicas graves, incluindo anafilaxia. O Instituto Zooprofilático Experimental da Sicília disponibiliza informação sanitária e formação para profissionais no âmbito do plano regional de resposta.
Por isso, a sua presença em locais utilizados habitualmente pela população — especialmente parques, jardins, escolas ou instalações desportivas — representa um problema diferente do associado a muitas outras espécies de formigas urbanas.
A deteção precoce pode fazer a diferença
Perante uma espécie invasora, encontrar uma colónia quando ainda está localizada é muito diferente de a descobrir depois de anos de expansão.
Quanto maior for a área ocupada, mais complexas e dispendiosas se tornam as ações de contenção e erradicação.
O caso siciliano demonstra precisamente a importância de reforçar esta capacidade. Em 2025, a administração regional iniciou uma fase operacional de tratamento e vigilância nas áreas afetadas. Posteriormente, lançou também uma ferramenta que permite aos cidadãos fotografar e geolocalizar possíveis formigueiros, sendo as comunicações analisadas por investigadores da Universidade de Catânia.
Durante 2026, continuam ainda projetos especificamente destinados a estudar a sua distribuição, monitorização e contenção, no âmbito do plano de erradicação da Sicília.
A lógica é particularmente interessante para o setor profissional:
detetar → identificar → geolocalizar → confirmar → intervir → verificar os resultados.
É muito mais eficaz do que esperar que as colónias se tornem suficientemente numerosas para se transformarem num problema evidente.
Que papel podem desempenhar as empresas de controlo de pragas?
As empresas de controlo de pragas podem tornar-se uma rede adicional de vigilância.
Os seus técnicos percorrem diariamente parques empresariais, condomínios, escolas, indústrias, hotéis, instalações públicas e inúmeras áreas urbanas. Isto significa que possuem uma capacidade de observação territorial difícil de alcançar apenas através de inspeções pontuais realizadas pelas autoridades.
Mas, para aproveitar este potencial, precisam de saber o que procurar e o que fazer perante uma suspeita.
A formação deverá permitir diferenciar uma possível Solenopsis invicta de outras espécies de formigas muito mais comuns, reconhecer formigueiros suspeitos e registar corretamente a sua localização.
Uma possível ocorrência poderia seguir um procedimento simples:
deteção suspeita → fotografia e geolocalização → registo → identificação por um especialista → comunicação à autoridade competente → intervenção de acordo com o protocolo oficial.
O importante é evitar respostas improvisadas.
Perante uma espécie invasora sujeita a programas oficiais de vigilância, a prioridade não deverá ser aplicar imediatamente qualquer tratamento disponível, mas confirmar corretamente a identificação e seguir os procedimentos estabelecidos pelas autoridades competentes.
Da inspeção individual ao mapa de vigilância
A digitalização pode assumir uma importância especial neste tipo de situações.
Uma observação isolada tem um valor limitado. Muitas observações geolocalizadas permitem identificar padrões.
Se, durante as visitas, os técnicos puderem registar possíveis colónias, fotografias, ocorrências e pontos inspecionados, essa informação poderá posteriormente ser transformada em mapas de distribuição.
Um sistema deste tipo permitiria verificar:
- onde surgem as primeiras deteções;
- se existem focos próximos entre si;
- que ambientes apresentam maior recorrência;
- se uma área tratada volta a registar atividade;
- em que direção o problema parece estar a deslocar-se.
As ferramentas GIS, os alertas geolocalizados e os mapas de calor já fazem parte de plataformas especializadas como o iGEO ERP, onde a informação recolhida no terreno pode ser associada a pontos de controlo, históricos e relatórios técnicos.
Perante uma espécie invasora, esta rastreabilidade pode tornar-se muito mais do que uma melhoria administrativa: permite transformar múltiplas inspeções individuais numa rede organizada de vigilância territorial.
Estão as cidades europeias preparadas?
Não existe uma única resposta.
O risco não é igual em toda a Europa e a presença confirmada continua localizada. Além disso, os modelos de adequação climática não são previsões dos locais onde a espécie irá necessariamente aparecer: indicam onde poderá encontrar condições favoráveis caso consiga chegar.
Mas a Sicília demonstra que a barreira do estabelecimento já foi ultrapassada.
A Europa passou de falar de possíveis introduções para enfrentar uma população estabelecida e um programa ativo de erradicação.
Isto altera a abordagem.
As cidades potencialmente favoráveis deverão prestar especial atenção:
- à vigilância de espécies invasoras;
- aos pontos de entrada e à movimentação de mercadorias;
- aos viveiros e ao transporte de plantas e solo;
- à formação de técnicos municipais e profissionais;
- aos protocolos de identificação;
- a sistemas simples para registar e comunicar suspeitas;
- a mecanismos de resposta rápida quando é confirmada uma nova população.
Neste contexto, a rapidez é tão importante como o tratamento.
Conclusão: encontrá-la antes que se torne habitual
A formiga-de-fogo-vermelha ainda não faz parte da paisagem quotidiana das cidades europeias.
É precisamente por isso que ainda existe uma oportunidade.
A experiência internacional demonstra que, quando uma espécie invasora ocupa grandes territórios, eliminá-la pode tornar-se extremamente difícil. A Europa encontra-se ainda numa fase em que a vigilância, a identificação precoce e uma resposta coordenada podem desempenhar um papel decisivo.
O caso da Sicília deve ser entendido mais como um alerta do que como prova de uma invasão generalizada.
Existe uma população estabelecida. Existem cidades europeias com condições potencialmente favoráveis. E continuam as ações destinadas a conter e erradicar o foco conhecido.
Para as empresas de controlo de pragas, isto introduz uma nova responsabilidade: não apenas controlar as espécies que já conhecemos, mas estar preparadas para reconhecer aquelas que ainda estão a chegar.
Porque, perante uma espécie invasora como Solenopsis invicta, o melhor momento para agir não é quando começa a aparecer em todos os parques.
É quando encontrá-la ainda causa surpresa..


